O debate político em Portugal
Sexta-feira, 20 de Fevereiro, 2009Há uma questão que raramente é abordada no debate político em Portugal mas que é fulcral para o futuro e que tem a ver com a governabilidade do país. Esta questão assume uma dupla relevância num ano eleitoral e estou convencido que será um dos critérios maiores que vai pesar na decisão dos eleitores. Como o demonstram os sucessivos actos eleitorais em Portugal há uma “sabedoria politica” nas escolhas feitas e se as analisarmos em cada circunstância de forma objectiva, sem “óculos partidários”, concluiremos que essas escolhas foram quase sempre as mais acertadas tendo em conta o futuro do país. Este ano não vai ser diferente até porque estamos num ano de crise económica e financeira. Neste contexto muitos comentadores ou analistas atacam propostas como a de uma maior equidade fiscal ou a dos casamentos de pessoas do mesmo sexo circunscrevendo a sua análise aos efeitos pontuais dessas medidas ou à sua eficácia mas ignorando o seu alcance político e a importância de se buscar uma solução vencedora e uma maioria estável num quadro político muito especial. De facto quais são as características essenciais da situação politica em Portugal hoje?
-
A primeira é o colapso politico da direita portuguesa o que é mau para o regime democrático e para o futuro. A democracia é o regime da conflitualidade mas essa conflitualidade nasce do confronto de ideias e hoje em Portugal a direita está sem ideias. Tendo defendido durante anos a fio o dogma político do neoliberalismo que endeusava a economia de mercado e a desregulação, erigia o governo como o problema, defendia o Estado mínimo e a privatização cega, essa direita está hoje órfã e perdida. Caiu-lhe o céu em cima da cabeça e circula em sentido contrário na auto-estrada da política do século XXI. Por isso não discute ideias e aposta no ruído e nas campanhas e ataques pessoais. Como sabemos esta é uma estratégia letal em politica porque quando o “boomerang”regressa é arrasador. Já aconteceu assim em 2005. E há ainda outra questão curial que se liga à anterior: a direita está profundamente desacreditada. Esse descrédito nasce não só da quase “infantilização” das disputas políticas internas em ambos os partidos e da sua luta auto-fágica interminável mas também da catástrofe que representou a última coligação da direita que governou o país e que “folclorizou”a vida pública portuguesa a um nível sem precedentes. Por outro lado quando se pergunta o que seria hoje do país se propostas como a da privatização da Caixa Geral de Depósitos ou a privatização da Segurança Social tivessem avançado, o efeito demolidor que daí resulta só pode acrescentar descrédito ao descrédito.
-
No outro extremo do leque partidário, temos a esquerda totalitária que tem vindo a crescer nas sondagens e que tem capitalizado o desgaste da governação do PS. Podíamos pensar que neste novo quadro que confirma a falência e o descrédito da direita e que reforça os partidos da esquerda totalitária, estes viessem dar ao debate político ideias novas e sustentáveis para enfrentar a crise e mover o país para a frente. Mas isso não acontece e por uma razão muito simples: a esquerda totalitária confunde a crise com o fim do capitalismo e não compreende que o que falhou não foi a ideia do mercado em si mas sim o princípio da auto-regulação dos mercados, o que é importante para formatar as políticas que vão lidar com a crise. Quer dizer: como a história demonstra, o papel do mercado como gerador de riqueza e progresso é essencial, desde que isso se articule com maior regulação e controle das actividades especulativas. Quando a esquerda totalitária apela ao fim do capitalismo ou à “proibição” dos despedimentos revela que continua a ter uma concepção passadista e determinista da história e uma incompreensão intrínseca sobre o funcionamento da economia. Não são boas qualidades para se fazer política. Isto aliás vê-se na sua acção política onde revela um oportunismo militante, conluiando-se frequentemente com os partidos da direita para vender essa ideia notável de que a crise foi fabricada pelo governo num mundo que está todo ele em crise, a maior crise das nossas vidas. Face a esta situação difícil exige-se seriedade, bom poder de análise e elevação no debate político. Estas não são características da esquerda totalitária, a mesma que enquanto apela à “convergência da esquerda” faz purgas internas à boa maneira estalinista e trotskista.
-
Tendo em conta este quadro, o problema que se coloca é como continuar no futuro o programa de reformas que em múltiplos sectores de actividade este governo tem posto em prática. Apesar dos erros e omissões que também existiram, é justo dizer que o país registou avanços importantes nas Finanças com o controle das contas públicas (sem o que a crise seria ainda pior), na reforma da Segurança Social, na Reforma da Educação (com um leque de medidas transversais muito boas que vão mudar para melhor a escola portuguesa e incluindo também a aposta na Qualificação dos Recursos Humanos com o excelente programa das Novas Oportunidades), na Reforma da Saúde de Correia de Campos (que hoje, como sempre acontece neste país depois das pessoas saírem do governo, já começa a ser reconhecida), nas mudanças conseguidas na economia e em especial nas nossas exportações cujo perfil mudou e é hoje mais tecnológico. A única forma de preservar o esforço feito é assegurar a governabilidade do país no próximo acto eleitoral e essa será certamente uma das preocupações centrais dos eleitores.


