Novas redes, nova esquerda
Quarta-feira, 14 de Janeiro, 2009A propósito daquela que foi apelidada da primeira medida do Governo contra a crise - o acordo sobre as redes de nova geração - é interessante rememorar algumas ideias feitas, factos políticos e outras quimeras sobre a relação entre a tecnologia e as políticas de esquerda.
O potencial revolucionário das redes de nova geração é tal que qualquer pessoa que se diga de esquerda não pode deixar de sorrir perante as suas possibilidades. Do que estamos a falar é de, finalmente, podermos fazer convergir, sobre um determinado aparelho uma capacidade comunicacional que permite assegurar actividades em rede, isto é, de acesso remoto e não presencial, que até agora seriam impossíveis.
É verdade que, mesmo entre a esquerda, há desconfianças e mitos:
1. A tecnologia favorece a direita (leia-se, o grande capital). Se atendermos ao investimento necessário para desenvolver, construir e instalar as redes essa afirmação, limitadora e maniqueísta como é, tem algum fundo de verdade. À semelhança das grandes redes de saneamento básico, abastecimento de água, electricidade, gás ou mesmo de estradas e ferrovias, a rede de fibra óptica tem que ser instalada por todo o país e não há como contorná-lo: há que, depois de desenvolver a tecnologia, estender cabo. Isto evidentemente requer um investimento brutal mas é apenas uma pequena parte do investimento se o compararmos com o retorno previsto pelas actividades amortizadoras. E é aí que se vive uma verdadeira revolução social tanto quanto tecnológica: a possibilidade de desenvolver serviços sobre as redes de nova geração está ao alcance de quase todos, de grandes empresas ou de pequenas start-ups ou spin-offs.
E é uma oportunidade que não se pode perder, pois implica, sobretudo, conhecimento e não capital. Implica conhecer os novos mercados, as novas tecnologias e as suas possibilidades para fazerem melhor, mais rápido e, sobretudo de formas impensadas, aquilo que sempre se fez. Seja comprar, vender, assistir, educar, fiscalizar, etc. Mas já lá vamos.
2. A tecnologia é uma coisa menor. Esta é outra das ideias que faz ainda o seu caminho à esquerda, sobretudo entre aqueles que não conseguem ver que, por exemplo, as redes de nova geração, não são uma coisa menor, elas são tao importantes como a roda. Esta ideia é alimentada pela exposição mediática de algumas das utilizações das novas tecnologias e das possibilidades permitidas pelas redes de nova geração. Por exemplo, ao folhear os jornais, aquando do anúncio do acordo relativo às redes de nova geração, o exemplo recorrente é que permitiam fazer o download de um filme inteiro em escassos segundos. Esta imagem, como outras de iPODs, Playstations 3, LCSs, PDAs, Notebooks, Smartphones podem contribuir, de forma bizarra, ora para um discurso de ociosização da tecnologica, ora para um discurso da escravatura pela tecnologia. Só esta contradição já deveria bastar para fazer perceber que a tecnologia, como uma arma, depende do uso que se faça dela.
E este é verdadeiramente o ponto. As redes de nova geração não só permitem que inúmeras pequenas start-ups possam surgir, permitindo o empreendedorismo, quer de especialistas em ciência e tecnologia, quer de juristas, engenheiros, arquitectos ou médicos que queiram levar as suas actividades para um patamar 2.0. E, é claro, há também um mundo de hipóteses ao dispor dos serviços públicos.
A primeira grande diferença possibilitada pelas redes de nova geração é um avanço para os serviços públicos interactivos e não apenas informativos. Com a capacidade de comunicação de dados através das redes de nova geração, em todas as áreas tradicionais das políticas públicas e, muito em especial, naquelas que são caras à esquerda, será fácil dar exemplos de como tudo pode mudar:
1. A possibilidade de contactar, de forma personalizada, os utentes dos serviços públicos, em suas casas ou em local por eles determinados. Esse contacto poderá ser por video e ter em anexo uma quantidade avultada de documentação, que não precisará de ser impressa podendo ser acedida, sempre, em qualquer lugar.
2. A possibilidade de estabelecer verdadeiras redes funcionais, quer de serviços da administração pública, de forma a garantir uma oferta integrada para o cidadão e para as empresas, quer de parcerias públicas-privadas (como esta: http://www.thecompact.org.uk/). Isto significa melhor investimento público mas significa, sobretudo, melhor serviço público, quer directo, quer indirecto.
3. A possibilidade de substituir serviços físicos, cujo objecto principal é informativo ou documental, sem necessidade de intervenção presencial, por serviços electrónicos. No que diz respeito a serviços de forte base documental esta revolução já está em curso, mesmo sem as redes de nova geração. Pense-se, a título de exemplo, na área da justiça, onde uma série de certidões, são hoje tratadas, em casa com todo o conforto e segurança. Esta possibilidade aumentará exponencialmente com a massificação da certificação electrónica permitida pelo cartão do cidadão, que permitirá que cada cidadão se identifique, de forma oficialmente reconhecida, a partir de qualquer computador. No que diz respeito a serviços de base informativa mas sem necessidade de intervenção presencial, as redes de nova geração trarão as maiores diferenças. Os call-centers do futuro não serão duas simples ligações telefónicas fixas. Em vez disso serão verdadeiros contactos personalizados em que, por video e com possibilidade de anexar documentos electrónicos, cada portátil, cada PDA, cada Magalhães, será um serviço público em potência com sistemas automatizados, inteligências virtuais e funcionários a garantirem a qualidade e a assistência.
4. A possibilidade de ir mais além, de ultrapassar a barreira do serviço informativo ou interactivo de base documental. A possibilidade numa palavra de prestar o serviço público à distância. As redes de nova geração permitem suportar, sem qualquer problema, uma sala de formação profissional virtual em que o formador esteja em Lisboa, a comunicar com formandos em várias outras cidades portuguesas, com envio de materiais de apoio, janelas privadas para dúvidas específicas, permitindo uma racionalização dos recursos mas, sobretudo, uma vitória sobre a marginalização dos subúrbios, do interior, das zonas periféricas. E aquilo que se diz para a formação profissional é possível para o ensino, para certos actos de tele-medicina e em muitas outras áreas.
Mas se o discurso em favor das redes de nova geração e a sua aplicação aos serviços públicos é importante, não deixa de ser a pequena ponta do iceberg, chamariz para uma revolução, cujas ramificações dependem em muito da utilização que os cidadãos dela exigirem e as empresas souberem aproveitar. E a ideia política fundamental que fica, qualquer que seja o exemplo que escolhamos para ilustrar a utilização destas redes, é que a velocidade de transmissão e o volume de informação contribui para uma maior igualdade de acesso a bens e serviços essenciais, já para não insisistir na simples disponibilização de um modo de expressão do pensamento e da opinião. O desafio, para as políticas públicas de esquerda será doravante saber integrar as potencialidades destas redes para cumprir um desígnio sempre proclamado e quase nunca concretizado - o da igualdade de acesso - o que terá que passar por uma aposta forte na massificação da disponibilização das redes mas, sobretudo, na sua utilização funcional.
Há aqui uma hipótese de se conseguir algo que cure uma falha geracional: com números de iliteracia funcional ainda elevados, muito em parte motivados por dificuldade de acesso ao ensino, mas também a informação e formação generalizada que combata a falha do ensino e seja um seu sucedâneo, as redes de nova geração podem ajudar Portugal a criar uma geração de alfabetizados electrónicos que não apenas saibam ler mas que acedam à educação, à cultura, aos serviços, para além de barreiras monetárias, geográficas ou sociais.
O Governo deu um passo no sentido de uma política tecnológica de esquerda ao promover a rápida instalação das redes de nova geração. Mas uma nova esquerda sabe que as verdadeiras políticas de futuro são as que estão agora a ser planeadas, para utilizar as possibilidades das redes de nova geração para prestar os serviços públicos de forma mais universal, mais atenta, mais personalizada. Mas passa também por assegurar que os cidadãos e as empresas que mais precisem são as que mais beneficiem deste investimento. Um empresa desmaterizalizada, que existe maioritariamente sobre uma rede de nova geração, poupa de forma drástica nos custos de arranque, bem como nos custos de funcionamento - como provam exemplos como a Amazon ou a EasyJet. As várias exclusões - económicas, sociais, culturais - por que passam muitos cidadãos são também combatidas pelo acesso a redes de nova geração, quer em locais de disponibilização pública, que através de um acesso de reduzido custo a um qualquer tipo de terminal. Não só permitindo um acesso igualitário - em qualquer horário, em várias línguas, etc - como permitindo poupar em transportes, serviços encerrados inesperadamente, emolumentos e outros custos associados à necessidade de manter pessoal em permanência ao atendimento público.
É preciso combater tanto a exclusão presente como aquela que se antecipa para o futuro. E essa será, sem dúvida, como, em certa medida smpre foi, a daqueles que não possam beneficiar de toda a informação, de maior oferta e, logo concorrência, de mais serviços públicos e privados. Nos tempos vindouros, sob forma electrónica.
Da perspectiva do pensamento político de esquerda há dois pontos nevrálgicos que as redes de nova geração vêm reactivar:
1. Uma nova forma de apoiar a economia, através de apoios dirigidos a serviços sobre as redes que permitam investimentos qualificados em C&T e em I&D, em articulação com outras iniciativas já existentes e a desenvolver nestas áreas e que criem também emprego qualificado.
2. Um novo modo de combater as desigualdades sociais, através do diagnóstico dos grupos mais desfavorecidos e uma aposta forte na disponibilização (equipamento e conhecimento de utilização) da informação, sua utilidade e suas vantagens nas mais diversas áreas, como uma forma de poupar, de racionalizar o tempo, de integração, de melhoria da qualidade de vida.
Não basta dar o peixe, nem a cana, já não basta sequer ensinar a pescar. É preciso dar o computador, dar a formação necessária para o utilizar em redes de nova geração, como uma ferramenta diária, e sobretudo, fazer perceber em que medida cada pessoa, cada família, cada empresa, pode usar as inúmeras soluções para os seus problemas.


