Já muito se escreveu sobre como a crise actual colocou, por muitos e bons anos, em causa as virtudes das ideias neo-liberais do Estado mínimo e da ampla desregulação dos mercados. Isto é verdade, mas esta conclusão é demasiado fácil, e confere à esquerda social-democrata uma sensação de feel good que é, a meu ver, muito perigosa. Na verdade, o impacto gradual da recessão actual e a indeterminação dos seus reais efeitos a curto e médio prazo está, neste momento, a ser mais desgastante para a esquerda do que para a direita. É necessário que a esquerda – e por aqui refiro-me ao arco dos partidos socialistas, social-democratas e trabalhistas que, nos países europeus, têm vocação de poder e responsabilidades governativas – se aperceba disso, e do momento-chave por que passa. Se não o fizer e se não discutir abertamente as ambiguidades e fragilidades de algumas das suas concepções do sistema económico – nalguns casos, excessivamente próximas das defendidas pelos partidos de centro-direita? – corremos o risco de proclamar a derrota do neo-liberalismo sem nos lembrarmos que ao longo destes últimos 20 anos a esquerda esteve no poder e tomou decisões – mais ou menos convictamente, e mais ou menos consensualmente (tratam-se de debate contíguos, mas diferentes). Tem, por isso, responsabilidade política, e deve também responder por ela.
Assim, parece-me ser necessário abrir uma frente de debate no interior deste espaço político-ideológico – porque se não o fizermos, esse “debate” será feito mais à esquerda do nosso espaço: “debate” entre aspas porque, em bom rigor, não há debate nenhum, mas o “regresso do reprimido” através de fórmulas - uma mais sofisticadas, outras mais dogmáticas - de rejeição e denúncia da economia de mercado.
Deste modo, não é preciso concordar com os que dizem que:
- a União Europeia é um projecto que expressa uma utopia neo-liberal e procura impor um mercado sem regulação, de destruição do Estado social, e que não tem qualquer atenção aos processos de redistribuição (geográfica) de riqueza e de coesão social e regional/nacional;
- tendo sempre sido contra a Europa - porque violadora da “soberania nacional” -, querem reconstruir a nível europeu o que não conseguiram a nível de cada país [e, ironicamente, os parentes mais pobres da UE são aqueles que historicamente mais longe levaram a recusa da economia de mercado, e são também aqueles que hoje mais entusiasticamente abraçam o capitalismo (a adopção por vários países da flat taxes é um exemplo), et pour cause!], aquilo que parece ser uma espécie de socialismo economicamente auto-suficiente do resto do mundo;
- acham que qualquer medida de liberalização e ou desregulação é intrinsecamente neo-liberal ou perversa (mesmo que implique partir oligopólios e desenhar politicas de competição que tornem as empresas europeias mais pujantes a nível internacional, onde não concorrem com o campeão nacional do lado, mas com as empresas japonesas ou americanas - e amanhã chinesas - de altíssimo nível), e que, na sua raíz, diabolizam a própria concepção de “mercado”, sem ter nada para oferecer em troca senão uma série de soluções sem nunca ser feita uma auto-avaliação histórica das mesmas (como se agora começarmos a nacionalizar as economias representasse uma solução para o médio prazo - afinal de contas, não estamos em 1917 nem em 1945!)
- acham que a limitação dos défices públicos não é senão uma grande conspiração contra as classes trabalhadoras, e que basta ter um poço de dinheiro sem fundo para gastar para que se resolvam os problemas do crescimento da produtividade, da inovação e da riqueza, e para melhorar o funcionamento dos serviços públicos…
…para reconhecer que a economia europeia tem problemas sérios de coordenação político-económica e que o “modelo social europeu” precisa de ganhar consistência institucional e robustez financeira. Estamos, afinal de contas, a menos de um ano de distância de 2010, e a Europa está longe de cumprir uma série de objectivos a que se propôs na Estratégia de Lisboa. Não se trata, ao recordar isto, de alimentar uma espécie de auto-flagelo; concordo com João Cravinho quando este afirma que os objectivos formulados para 2010 eram excessivamente ambiciosos. Mas a questão não é de calendário - é se a Europa tem “motor” para lá chegar.
Não se trata aqui de encetar uma engenhosa “triangulação” clintoniana, colocando retoricamente na agenda uma discussão sobre a economia politica europeia para dizermos que também nos preocupamos com isto, apenas para deixar tudo fundamentalmente na mesma. Trata-se, isso sim, de, mantendo o objectivo de construir uma social-democracia robusta e moderna dentro de um sistema capitalista de bem-estar (e, por isso, de não arranjar estratagemas para pretender atingir o socialismo num qualquer horizonte), perceber se as institucões e as regras que foram concebidas e implantadas pelo menos desde Maastricht são os melhores. Não estamos em 1993, nem em 2000. Estamos quase em 2010 e não é expectável que, com a recessão que se apresenta profunda (quando vai chegar o dia em que se começará a falar de “depressão”?) em 2015 ou 2020 tenha havido uma particular revolução positiva na economia europeia.
A ideia fundamental é esta: seria um erro deixar a esquerda minoritária, sem qualquer vocação nem experiência de poder - e por isso dada a toda e qualquer irresponsabilidade programática -, e sem qualquer legitimidade para dar à esquerda social-democrata lições de democracia e de capacidade de gerir sistemas complexos (como é um sistema económico moderno), sozinha a discutir questões relativas às regras e às instituições que regem a economia europeia. Conferir-lhe, mesmo que involuntariamente, o monopólio de facto desta discussão é, parece-me, um erro estratégico. Este é o momento por excelência - dada a intensidade da crise económica que vai marcar este virar de década – para eventualmente repensar algumas regras e instituições; por exemplo, o que fazer da missão do Banco Central Europeu? Não faz sentido que, num contexto global deflacionista como o actual (e penso a médio prazo, dado o efeito que a globalização das trocas tem e continuará a ter, tendencialmente, sobre os salários e os preços), passe a incluir no processo de definição da política monetária objectivos de crescimento económico? O que fazer com os off-shores, que retiram muitos milhares de milhões de euros aos Estados todos os anos? Para quando um orçamento europeu que confira real capacidade continental de investimento e de redistribuição? Estas questões são controversas - mas são tudo menos novas. O que pode ser nova é a urgência em colocá-las.
Benjamin Friedman, no seu magistral The Moral Consequences of the Economic Growth, ilustra empiricamente - a partir do caso americano, mas com relatos das experiencias britânica, francesa e alemã - a hipótese de que o crescimento económico partilhado sustentado produz consequências positivas nas esferas políticas, sociais e culturais da sociedade; que, nos termos usados pelos iluministas, permite uma evolução moral da sociedade, no sentido de uma maior tolerância, aprofundamento da democracia e das regras e instituições de cariz universalista. Inversamente, em período relativamente longos de estagnação económica, é grande a probabilidade de os indivíduos traduzirem o recrudescer da sua ansiedade e descontentamento em acções de proteccionismo reaccionário e fechamento em relação aos grupos vistos como fáceis bodes expiatórios – estrangeiros, minorias étnicas, religiosas ou simplesmente os trabalhadores desqualificados cuja vulnerabilidade ao desemprego os isola como elementos particularmente dependentes dos apoios públicos.
Não sendo fácil comparar os diferentes casos europeus com a realidade norte-americana de estagnação dos rendimentos da grande maioria das famílias no último terço de século (tirando os anos Clinton, que foram uma excepção, numa dinâmica entretanto retomada com G.W.Bush, como lembrava há dias Paul Krugman), é verdade que, regra geral, na Europa, a geração nascida entre meados dos anos 70 e meados dos anos 80 está numa posição mais difícil daquela que foi conseguida pela geração dos seus pais: aos 30 anos glorieuses, parecem ter-se seguido os 30 anos piteuses.
Na ausência de crescimento partilhado e perante a visível estagnação ou retracção do nível de vida por comparação com a geração anterior, lembra Friedman, as tensões sociais e culturais aumentam, e podem ter tradução na esfera politica/eleitoral - como tiveram nas ultimas décadas em diferentes países, com o protagonismo assumido por vários movimentos e/ou partidos de extrema-direita (França, Áustria, Holanda, Itália, etc.). Com a presente recessão em marcha, esta situação pode agudizar-se – as recentes manifestações do tipo “British Jobs for British Workers” representam apenas o regresso da pior face do nacionalismo económico, e esperemos que não seja apenas a ponta do iceberg. O impacto do desemprego que está a crescer por essa Europa fora – um processo cujo ‘fundo’ não me parece que consigamos ver, mas apenas estimar grosseiramente – na coesão social e nas respostas das populações é uma incógnita.
Que resposta a Europa – e não os países entregues a estratégias individuais e descoordenadas de limitada eficácia – tem para dar aos seus cidadãos e trabalhadores está, em larga medida, por determinar. Este pode, e provavelmente, tem de ser o momento para a esquerda europeia reflectir, e questionar definitivamente se os instrumentos e as instituições de que a Europa se dotou até agora para proteger os cidadãos e estimular a economia não são, afinal, limitados.
É provável que a janela de oportunidade que a crise abre para a esquerda coloque as coisas nos termos de um “agora ou nunca” - sobretudo porque sabemos uma coisa: se a posição progressista não for convincente e eficaz, a posição populista vai ficar a falar sozinha. Perante o aumento do desespero de milhões pelo continente fora, isto seria o pior que podia acontecer. É urgente, pois, definir posições e traçar fronteiras não apenas entre a esquerda e a direita - o que já não seria mau de todo! -, mas no interior da esquerda; e elaborar soluções e sustentar justificações, trabalhando-as a divulgando-as nas altas temperaturas do debate público.
Em grande medida, o Estado social do pós-1945 nasceu das soluções que foram sendo experimentadas na década anterior, muito às cegas, como resposta aos tenebrosos anos 30 de profunda crise social e económica. Hoje, o Estado social do século XXI (ou o “modelo social europeu”) pode reforçar-se a partir de soluções experimentadas - menos cegamente do que no passado, espera-se - nos próximos meses e anos. Hoje sabemos mais sobre sistemas económicos do que em 1932-1933. O que pode faltar é a mesma tenacidade que F.D.Roosevelt revelou quando agiu em concordância com as suas palavras: «We sensed the truth that democratic government has innate capacity to protect its people against disasters once considered inevitable, to solve problems once considered insolvable…We refused to leave the problems of our common welfare to be solved by the wind of chance and the hurricanes of disaster.»
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