Orgulhosamente só
O primeiro dia do XVIII congresso do PCP mostra não haver nada de novo desse lado. Mantém-se o mesmo dogmatismo e a mesma rigidez retórica, típica dos tempos da guerra-fria. Um maniqueísmo absolutamente delirante. No actual contexto sociopolítico, as diversas formações de esquerda (sociais-democratas, socialistas, comunistas, etc) debatem-se com o vazio ideológico, a aversão ao debate, o individualismo negativo, a precariedade e o sentido de fragilidade, de perda, e de impotência que atinge amplos sectores das classes trabalhadoras e da classe média. Em especial os sectores sociais envelhecidos e sem esperança (inclusive os que já foram medianamente politizados ou que algum dia acreditaram na viabilidade do comunismo como solução salvífica) precisam de agarrar-se a um qualquer referente colectivo, um símbolo identificador que atenue esses sentimentos de perda e frustração. Daí que a dramatização e o apelo de Jerónimo de Sousa à tradição de luta “gloriosa” do PC possa funcionar como um ritual de exaltação capaz de reavivar o sentido de comunhão colectiva (agora mais difuso e difícil de encontrar, a não ser em organizações religiosas, ou outras dadas a semelhantes liturgias). Além disso, a aura encantatória dos ícones do passado, o ressuscitar a memória do velho líder, etc., induz um efeito sacralizador. Os fiéis sentem-se em paz consigo mesmos e de algum modo “compensados”, como se nota na sua postura devota e nos rostos “iluminados” de muitos militantes presentes no congresso.
A crença na pureza do partido e as glórias do passado são o garante de uma inevitável vitória final (a história irá provar…, dizem e repetem-nos). Embora ainda recentemente o dirigente máximo deste partido tenha admitido (certamente por lapso) a possibilidade de uma aliança com outras forças de esquerda, o partido-dono-da-verdade é, afinal, o que sempre foi: a vanguarda da luta de massas e o farol do paraíso socialista. Quem são hoje os inimigos? Por um lado, o capital, o sistema e as políticas de direita do costume (esteja o PS ou o PSD no poder), por outro lado, todos os outros que se arvoram de esquerda mas que, do ponto de vista do PC, sempre fazem o jogo da direita. De resto, como todos sabemos, PS, Bloco, alegristas ou ex-comunistas apenas existem para destruírem o PCP. Será mesmo isso que anima o discurso do PC? Ou será este maniqueísmo apenas uma táctica adequada às características das suas bases de apoio?
O que não há duvida é que este partido parece entrar em pânico perante o risco de se ver ultrapassado pelo BE. E mais ainda de ver fortemente reduzida a sua base eleitoral perante um possível cenário de uma “frente de esquerda” que congregue diferentes correntes. Quem vai beneficiar do descontentamento face ao governo Sócrates? Apesar de possuir uma base estável e fiel de eleitores, havendo novas alternativas de esquerda (uma eventualidade pouco provável mas talvez necessária) não me parece que o PC ganhe alguma coisa com este reforço do “orgulhosamente só”. Por seu lado, para a “concorrência”, talvez este fechamento até seja preferível do que ter o PC a manobrar por dentro, caso surjam novos movimentos ou plataformas de esquerda (como é costume)!


